ALL quer ampliar o uso da ferrovia

Carlos Eugênio
| Fontes de problemas e atrasos para a evolução dos transportes no País, as ferrovias passam a ganhar destaque à medida em que as operadoras, que privatizaram o setor em 1997, implantam seus modelos de gestão. |
Fontes de problemas e atrasos para a evolução dos transportes no País, as ferrovias passam a ganhar destaque à medida em que as operadoras, que privatizaram o setor em 1997, implantam seus modelos de gestão.
As mudanças são sensíveis. Estão na ampliação das cargas e nas atitudes dos gestores. "A minha meta é que nenhuma fábrica se instale fora dos domínios da ferrovia", disse o presidente da América Latina Logística (ALL), Bernardo Hees, que administra 17 mil quilômetros de trilhos que ligam o Centro-Oeste brasileiro à Argentina.
Em entrevista à Gazeta Mercantil, o dirigente reafirmou que quer ampliar o uso da ferrovia por parte das empresas, que garante um frete até 20% menor que os caminhões.
Hees, um economista, montou uma equipe de alto nível e comprometida em buscar resultados para o cliente. "Estamos contagiados pela atividade de logística. ´É empolgante, não tem rotina e temos um mundo para crescer", diz entusiasmado o presidente da ALL.
Entre os vários desafios que Hees tem pela frente, um deles é tornar viável a Brasil Ferrovias, a operadora que a ALL comprou e que abre os trilhos da companhia para a expansão na direção do Centro-Oeste, onde vai ampliar a atuação em cargas agrícolas.
Gazeta Mercantil - Com a compra da Brasil Ferrovias, a ALL teve que investir muito para tornar o trecho mais eficiente...
Sim, muito. Para se ter uma idéia, no trecho paulista (ex-Fepasa) há trechos com trilhos instalados da década de 40, 50. Quando fomos trocá-los, descobrimos que eram trilhos poloneses que o Brasil trocou na época da Segunda Guerra por grãos e carnes. Nestes trechos não havia uma manutenção desse tipo há muito tempo. Mas, a surpresa maior se deu quando decidimos trocar os trilhos.
Gazeta Mercantil - Mas da Polônia?
Sim. Quando fomos trocar os trilhos da malha da Brasil Ferrovias, procuramos a empresa que forneceu o material e ninguém conhecia. Quando descobrimos, era uma polonesa que forneceu os trilhos num acordo com o governo brasileiro em troca de grãos e carnes.
Gazeta Mercantil - Mas quanto vocês já trocaram?
Olha, ano passado nós importamos 30 mil toneladas de trilhos para reparar a malha da Brasil Ferrovias e também realizar a manutenção da parte Sul, que está nos estados do Paraná e Rio Grande do Sul. Todo esse material é importado porque não há fabricante no Brasil, apesar do País ser um grande produtor de minério de ferro e de produtos siderúrgicos.
Gazeta Mercantil - E quais os investimentos globais previstos para este ano?
Devemos investir cerca de R$ 700 milhões na recuperação da malha e na compra de vagões e locomotivas. O plano é incorporar 50 locomotivas e 1,5 mil vagões a nossa frota. Desde que compramos a Brasil Ferrovias nossos investimentos anuais têm aumentado muito. Isso pelo trabalho de recuperação de toda a malha norte da companhia. Mas, em cada R$ 1 investido pela ALL R$ 1 é aplicado pelos nossos clientes. Então esse valor é maior ainda. Eles compram vagões, reativam alguns ramais.
Gazeta Mercantil - Em relação à concessão. Quanto a ALL paga para o governo?
Nós pagamos pelo conjunto de concessões um total de R$ 250 milhões por ano. Esse dinheiro é destinado para o pagamento dos antigos funcionários da Rede Ferroviária Federal. Aliás todo recurso da concessão de ferrovias tem este fim. O governo não investe na malha tem muito tempo. Só agora o governo conseguiu um jeito e realizou o leilão da Ferrovia Norte-Sul. Com os recursos, fará mais um trecho da ferrovia. É uma fórmula que poderá dar resultados.
Gazeta Mercantil - Tem um trecho entre Rondonópolis (MT) e Alto Araguaia (MT) que é uma das obras prioritárias do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento)...
Sim. Estamos conversando com o governo e temos uma alternativa. A idéia é formar uma PPP privada para a construção desse trecho. Investidores realizam as obras, mas nós operamos, pagando como se fosse um pedágio para o dono da ferrovia.
Gazeta Mercantil - Há interesse de investidores nesse tipo de negócio?
Sim. Estamos conversando com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e com grupos que já manifestaram o interesse em construir o ramal. A nossa expectativa é que tudo esteja definido ainda neste semestre.
Gazeta Mercantil - Qual é o investimento?
Bom o projeto prevê investimentos de R$ 700 milhões para a construção de 250 quilômetros de ferrovia.
Gazeta Mercantil - Esse valor já inclui a desapropriação?
Sim, esse é o investimento total. Mas não há muitas desapropriações ao longo do trecho já que a ferrovia.
Gazeta Mercantil - E a obra é trabalhosa?
Não. É um trecho em linha reta e obras de grande porte deverão envolver apenas duas ou três pontes. Na verdade, esse trecho vai viabilizar o transporte de soja por ferrovia. Já que os produtores levam a produção para um terminal em Alto Araguaia para fazer o transbordo para o trem.
Gazeta Mercantil - Com esse ciclo de investimentos e novos ramais em operação dá para estimar um faturamento em cinco anos?
Olha, no ano passado nós faturamos R$ 2,3 bilhões e para este ano a previsão é de uma receita 20% maior. Mas, uma estimativa longa desse jeito não podemos fazer. O que posso dizer que irá aumentar muito o negócio.
Gazeta Mercantil - A concessão é longa. 25 anos?
Não. Nosso contrato é para 30 anos renovável por mais 30. Na verdade o processo de concessão foi um grande negócio para o governo. Para se ter uma idéia, em 1996 a Rede Ferroviária Federal tinha perdas anuais de R$ 1 bilhão. Só com o leilão dos trechos o governo arrecadou R$ 700 milhões. Além disso, pagamos pela concessão anualmente. Tal recurso é destinado para o pagamento dos ex-funcionários da Rede Ferroviária.
Gazeta Mercantil - O lucro da ALL é reinvestido?
Todo o lucro é reinvestido na própria companhia. Com a recuperação da malha. Isso aumenta o valor do ativo de nossos acionistas. Na Brasil Ferrovias, por exemplo, conseguimos reduzir o número de acidentes na via e aumentar a velocidade. Encurtamos o tempo de viagem de 215 horas para 140 horas entre Mato Grosso ao Porto de Santos.
Gazeta Mercantil - A ALL tem um braço rodoviário?
Sim, desde o início da empresa temos uma empresa rodoviária. Que, agora, por sinal, iniciou um contrato com General Motors para operar na rota da Argentina no transporte de peças. Essa movimentação será feita por 350 caminhões que farão 500 viagens por mês. Esse contrato começou em janeiro e deveremos transportar 20% da carga para a montadora. Iniciamos também uma operação intermodal no transporte de arroz do Rio Grande do Sul para Fortaleza. Nesse contrato levamos o arroz por ferrovia até o porto de Rio Grande e daí a carga segue por navio até Fortaleza.
Gazeta Mercantil - Vocês pretendem operar também na cabotagem?
Não. Já existem boas empresas que operam esse serviço. Para realizar o "porta-a-porta" contratamos uma operadora de cabotagem. Não é nossa intenção iniciar uma operação dessas.
Gazeta Mercantil - E o transporte de cargas frigorificadas..
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Já transportamos carnes. São cerca de 10 mil toneladas por mês de Cascavel ao porto de Paranaguá. Temos ao longo da ferrovia sete pontos de energia para recarregar o vagão.
Gazeta Mercantil - Os vagões frigorificados são da ALL?
Não. São equipamentos muito caros e como disse, nossos clientes são parceiros e geralmente investem na compra de vagões. Hoje, de nossa frota total de 27 mil vagões, cinco mil são de clientes.
Gazeta Mercantil - Em comparação com o caminhão é um frete mais barato...
Sim. Nas cargas industriais, o valor do frete ferroviário chega a ser até 20% mais barato.
Gazeta Mercantil - E qual a meta para este ano?
A minha meta é não deixar que nenhuma fábrica se instale fora dos domínios da ferrovia. Para este ano, esperamos crescer muito no transporte internacional, utilizando principalmente nosso trem expresso para a Argentina. A perspectiva é um crescimento de 50% no volume de cargas transportadas.
| Gazeta Mercantil
09/04/2008